
Durante décadas, a ideia de que relações sexuais entre mulheres seriam praticamente livres de infecções sexualmente transmissíveis (ITS), o que contribuiu para o silêncio sobre a saúde sexual de mulheres lésbicas, bissexuais e outras mulheres que fazem sexo com mulheres (MSM). Mas especialistas alertam que HPV, Herpes, Tricomoníase, Sífilis, entre outras infecções, podem ser transmitidas entre parceiras, dependendo do tipo de contacto sexual. A falta de informação e o baixo uso de métodos de barreira podem aumentar a vulnerabilidade.
O MITO DE QUE ENTRE MULHERES NÃO HÁ ITS
A orientação sexual, por si só, não determina o risco de uma pessoa contrair uma ITS.
De acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), mulheres que fazem sexo com mulheres (MSM) podem adquirir e transmitir infecções através de diferentes práticas sexuais, e o risco varia conforme a infecção, o tipo de contacto e a existência ou não de métodos de protecção.
O problema é que muitas mulheres não procuram testagem ou prevenção por acreditarem que, por não haver um homem na relação, não existe possibilidade de transmissão.
INFECÇÕES QUE PODEM SER TRANSMITIDAS ENTRE MULHERES
O HPV é um dos exemplos mais importantes, sendo que pode ser transmitido através do contacto pele com pele durante a actividade sexual e também através de brinquedos sexuais. O CDC encontrou evidências de infecção por HPV inclusive entre mulheres que nunca tiveram relações sexuais com homens.
O Herpes também pode ser transmitido entre parceiras através do contacto genital, oral-genital ou com áreas da pele infectadas pode transmitir o vírus, mesmo quando não existem lesões visíveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) explica que o herpes pode ser transmitido através do contacto com superfícies da pele que aparentam estar normais.
A Tricomoníase é outra infecção cuja transmissão directa entre mulheres já foi documentada. O contacto com secrecções genitais pode permitir que a infecção passe de uma parceira para outra.
A Sífilis também pode ser transmitida entre mulheres, sobretudo através do contacto com lesões infecciosas durante práticas sexuais, incluindo sexo oral. Porém, a OMS classifica a sífilis como uma ITS curável, mas alerta que, sem tratamento, a doença pode provocar complicações graves.
CLAMÍDIA E GONORREIA TAMBÉM MERECEM ATENÇÃO
As evidências sobre a transmissão de clamídia e gonorreia especificamente entre mulheres ainda são mais limitadas do que para algumas outras ITS. Isso, porém, não significa que mulheres lésbicas e bissexuais estejam automaticamente protegidas.
O Centro de Controlo de Doenças (CDC) recomenda que os profissionais de saúde não descartem a possibilidade de não haver ITS pelo simples facto de uma paciente relatar que mantém relações com mulheres, portanto, a história sexual e as práticas realizadas devem orientar a decisão sobre testagem.
BRINQUEDOS SEXUAIS PODEM TRANSMITIR INFECÇÕES
Quando o mesmo brinquedo é utilizado por duas pessoas sem limpeza adequada ou sem troca da barreira de protecção, secrecções vaginais ou anais podem ser transferidas de uma parceira para outra. Ademais, entre as medidas de redução de risco estão a limpeza adequada dos brinquedos e o uso de um preservativo novo quando o brinquedo é partilhado.
SEXO ORAL: UMA DAS CADEIAS DE TRANSMISSÃO
Sexo oral também não é uma prática livre de risco, e a título de exemplo, o Herpes e a Sífilis, podem ser transmitidos através do contacto oral com uma região genital ou com lesões infecciosas, no entanto, depende da infecção e das condições existentes no momento da relação.
Barreiras de látex ou plástico, conhecidas em alguns contextos como dental dams, podem reduzir o contacto directo entre a boca e a região genital.
VAGINOSE BACTERIANA: UM CASO QUE MERECE ATENÇÃO
É extremamente necessário perceber que nem toda condição relacionada à saúde sexual é classificada como uma ITS tradicional.
É o caso da vaginose bacteriana (VB), uma alteração do equilíbrio das bactérias presentes na vagina. O CDC afirma que a condição é comum entre mulheres e apresenta uma associação particularmente forte com mulheres que têm parceiras femininas. Estudos também apontam associação entre novos parceiros, sexo oral receptivo e práticas envolvendo dedos e região genital
Isso significa que sintomas como alterações no corrimento, odor ou desconforto vaginal não devem ser automaticamente atribuídos à falta de higiene.
A RELEVÂNCIA DA TESTAGEM
Uma das maiores dificuldades no combate às ITSs é que muitas infecções podem não apresentar sintomas.
A OMS estima que mais de um milhão de ITSs curáveis são adquiridas todos os dias no mundo por pessoas entre 15 e 49 anos, sendo que a maioria permanece assintomática. Entre as principais estão clamídia, gonorreia, sífilis e tricomoníase, portanto, esperar pelo aparecimento de sintomas pode significar descobrir uma infecção apenas depois de ela já ter sido transmitida
Em julho de 2026, a OMS lançou uma base de dados global sobre a prevalência das ITSs, reunindo dados padronizados de países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, pois a iniciativa pretende ajudar a melhorar o conhecimento sobre a distribuição dessas infecções em diferentes populações e regiões.
REDUÇÃO DOS RISCOS
Entre mulheres, a prevenção pode incluir diferentes estratégias, dependendo das práticas sexuais tais como: utilizar barreiras de protecção durante o sexo oral, usar preservativo em brinquedos sexuais partilhados, trocar o preservativo do brinquedo entre parceiras, limpar correctamente os brinquedos antes de serem usados por outra pessoa, evitar contacto sexual com lesões ou feridas suspeitas, considerar o uso de luvas em determinadas práticas com os dedos, realizar testes de ITS quando houver indicação, manter a vacinação contra o HPV actualizada de acordo com as recomendações locais.
O CDC reforça que mulheres que fazem sexo com mulheres (MSM) não devem ser consideradas automaticamente como um grupo de baixo ou nenhum risco para as ITS.
ACESSO À INFORMAÇÃO COMO MECANISMO DE PREVENÇÃO DAS ITS ENTRE AS MULHERES
A falta de informação sobre as ITS entre mulheres LBTQI+ também pode criar uma barreira no atendimento médico.
Quando uma mulher acredita que não precisa de prevenção ou quando um profissional de saúde presume que ela não está exposta a determinadas infecções por ter apenas parceiras femininas, oportunidades de prevenção, rastreio e diagnóstico podem ser perdidas.
Todavia, falar de saúde sexual entre mulheres LBTQIA+ não significa incentivar comportamentos sexuais. Significa garantir que essas mulheres tenham acesso à mesma informação e aos mesmos cuidados de saúde que qualquer outra pessoa.
A mensagem central é simples: não é a orientação sexual que determina o risco de uma ITS. São as práticas, os contactos, as exposições e as medidas de prevenção que fazem diferença.


