
Para mulheres LBQ, o acesso ao emprego digno já era um desafio antes mesmo da crise se agravar. A discriminação baseada no género e na orientação sexual fecha portas, mina oportunidades e empurra muitas para a informalidade ou para o subemprego. Num cenário de retração económica, essas barreiras tornam-se muros: negócios de sobrevivência fecham, o desemprego cresce e a violência económica torna-se constante.
A crise económica que assola Angola, marcada pela alta inflação, perda do poder de compra e desvalorização da moeda, tem consequências severas sobre todos os sectores sociais. No entanto, como em qualquer crise, são sempre os corpos mais marginalizados que sentem primeiro e com mais força os seus impactos. Entre eles, estão as mulheres LBQ (lésbicas, bissexuais e queer), cujas realidades continuam a ser invisibilizadas nos debates sobre economia, emprego e políticas públicas.
Muitas mulheres LBQ que empreendiam em áreas como estética, culinária, arte, moda e prestação de serviços enfrentam grandes dificuldades para manter os seus projectos. Sem apoio financeiro, com preços de insumos a subir e com consumidores mais pobres, estas mulheres veem os seus sonhos ameaçados. O acesso ao crédito é quase inexistente, tanto por discriminação quanto pela ausência de políticas afirmativas.
Além disso, a carga emocional e mental gerada pela insegurança económica é profunda. A ansiedade, o medo do amanhã, o isolamento social e a exclusão familiar, realidades já presentes na vida de muitas mulheres queer, são agravadas quando se soma a instabilidade financeira. O resultado é um ciclo de vulnerabilidade que perpetua desigualdades e silencia ainda mais essas vozes.
Num país onde políticas de apoio a microempreendedores raramente contemplam marcadores como identidade de género ou orientação sexual, é urgente repensar o desenvolvimento económico com uma lente interseccional. Precisamos de políticas inclusivas que reconheçam que o género, a sexualidade e a classe social estão interligadas.
A economia não é neutra. E, se não incluirmos as mulheres LBQ nas estratégias de recuperação económica, continuaremos a alimentar uma estrutura que as exclui e as empurra para as margens.
Enquanto não houver intencionalidade política para mudar este cenário, a resiliência continuará a ser exigida, mas não poderá substituir o que é devido: justiça económica e dignidade para todas.



