
Em Angola, influenciadores queer têm usado as plataformas digitais para combater discursos de ódio e promover consciência social.
As redes sociais tornaram-se, nos últimos anos, uma das principais formas de comunicação, sobretudo entre os jovens. Todos os dias, milhares de utilizadores partilham mensagens com os seus seguidores, influenciando posicionamentos sobre questões sociais, culturais e políticas que afectam directamente as suas comunidades.
Em Angola, contudo, também se tem registado um aumento preocupante nos discursos de ódio contra pessoas LGBTQIAP+. Essas manifestações hostis baseiam-se, muitas vezes, em narrativas falsas, como a ideia de que a “homossexualidade não é africana” ou de que viver a própria sexualidade é um pecado à luz do cristianismo. A situação voltou a ser visível recentemente, após a Associação Íris Angola anunciar as candidatas à segunda edição do Miss Trans Angola 2025.
Neste cenário, Bruno Fernandes, Ariel Anselmo e Jerson Porto destacam-se como vozes queer que utilizam as redes sociais para sensibilizar, reeducar e inspirar a sociedade angolana.
Ariel Anselmo: Resgatando a história Queer africana

Ariel Anselmo, apresentadora do programa “Sem Cortes, Pod?”, é uma mulher trans que tem usado o TikTok para resgatar a existência da população LGBTQIAP+ na África antiga, antes do período colonial.
“Um dos principais factores que me motivou a fazer esse tipo de conteúdos foi a ausência de pessoas LGBTs em Angola que falam sobre esses assuntos na internet. Temos muitos activistas e organizações que abordam estas questões, mas fora da internet… Senti que precisava trazer esse assunto para a internet, com uma linguagem que o público jovem pudesse entender com facilidade”, explicou Ariel à Queer People.
Com base em pesquisas históricas africanas e em estudos da comunidade científica global, Ariel não apenas sensibiliza: ela reeduca e cria um espaço de diálogo saudável para jovens dentro e fora da comunidade LGBTQIAP+.
Bruno Fernandes: Reflexões Sociais em Directo

Bruno Fernandes, apresentador de TV e radialista, usa as redes sociais para partilhar a rubrica “Verdades na Hora com Bruno Fernandes”. Nela, comenta os acontecimentos sociais, culturais e políticos mais relevantes do país, analisando o impacto das decisões políticas na vida do cidadão comum e questionando a juventude angolana sobre os direitos e valores da sociedade.
“O Verdades na Hora é uma rubrica onde apresento o meu parecer sobre assuntos de importância social, cultural e económica, trazendo sempre a necessidade de reflexão sobre as questões que afectam a nossa sociedade”, declarou o influenciador num dos vídeos da série.
Jerson Porto: activismo digital e comunitário

Longe dos estúdios, mas perto da sua comunidade, Jerson Porto – activista e vencedor do prémio “Digital Influencer do Ano” nos Queer People Awards 2023 – tem mobilizado os seus seguidores em prol de causas sociais.
Um exemplo recente foi o apoio à menina Ângela, encontrada num parque da cidade do Lubango (Huíla) em Junho, quando chorava após perder o dinheiro das vendas por causa da fiscalização. Sensibilizado pela sua história e pela situação precária em que vivia com os irmãos, Jerson decidiu apadrinhá-los, garantindo materiais escolares e condições mínimas para que continuem a estudar.
“Durante o meu percurso também recebi ajuda em vários momentos. Ver a Ângela naquela noite a chorar mexeu muito comigo. Algo me motivou a ajudá-la, com o pouco que tenho… Poder apoiar ela e os irmãos é uma forma de evitar que tenham de ir para as ruas vender quando deviam estar a estudar e a sonhar”, contou o activista à Queer People.
Embora as redes sociais possam amplificar discursos de ódio contra minorias sexuais e de género, figuras como Bruno Fernandes, Ariel Anselmo e Jerson Porto mostram um lado diferente, onde as plataformas digitais servem como ferramentas de empoderamento, educação e transformação social.
Engajar com os conteúdos destes influenciadores Queer é, ao mesmo tempo, resistir à intolerância e construir espaços digitais mais seguros, inclusivos e conscientes.



